A fé é noturna
Não sei o que busco, mas sigo. Tudo o que sou perfuma o amanhã.
Acordei pensando na panelinha esmaltada na qual minha madrinha esquentava o leite para o meu café da manhã. Da panela, pulei para o pote de adoçante Finn e para a colher medidora, com a qual tomava três porções generosas para dentro da caneca. Então me lembrei também do pote de vidro do Toddy e da luz que as persianas tentavam barrar, o sol inclemente de Goiás deixando translúcido o marrom do vidro. Na parede, um quadro de natureza morta (ou seria de uma mulher tocando piano? Piano que deixei de tocar na adolescência) e, adiante, a cristaleira que foi de minha avó, além de um sofá forrado com tecido florido.
Enquanto tomava banho, pensei nos meses em que morei na casa dos meus avós, em Goianésia, logo depois que me formei na universidade. Na minha cidade natal, o calor não dá trégua. No entanto, curiosamente, minhas lembranças são todas de manhãs frias. Quando saía do meu quarto para ir ao banheiro e dar conta de minha higiene, tinha artimanhas para driblar a água mirrada do chuveiro, mas sentia, com meus pulmões asmáticos, o perfume do sabonete se misturando ao cheiro que todo pé de manga emana quando está em floração.
Então, diante do espelho, me equilibrando para vestir minha roupa, revi minha tia nos dias de lavanderia, a área de sua casa toda tomada de roupas dos meus primos, espuma borbulhando no tanquinho, a água escorrendo para o quintal e amaciando a terra com cheiro de Comfort. Naquele terreiro, havia um pomar e muitos, muitos pássaros. Quando cortaram o pé de tamarindo, me entristeci, porque nunca mais me esqueceria do azedume do suco que vinha daquelas, não de quaisquer, frutas e das quais não mais poderia me fartar.
Quando organizei minha bolsa, na sala de minha casa, pensei na minha mãe. Seis e pouco da manhã, meu irmão e eu prestes a irmos para escola, e o pequeno apartamento do Setor Aeroporto, em Goiânia, rescendendo a pão na frigideira e a Anette, perfume que o Boticário tirou de linha, me deixando órfão do cheiro de minha mãe, que eu também sentia enfiando minha cara no guarda-roupas, quando ela viajava. Saíamos todos juntos, apenas nós três, já separados do Azzaro que meu pai usava.
Então entrei no carro para vir ao escritório e respirei o ar frio de hoje, buscando o cheiro do estofado do Ka azul que minha mãe teve assim que nos mudamos de Goianésia para Goiânia. Ou o cheiro de mato da fazenda, o canto do galo, o vapor que subia da bica, a adstringência da carambola estrelada na língua. A alvorada sempre foi meu momento favorito do dia. Acordava cedo aos sábados e torcia para que estivesse chovendo, só para sentir a terra molhada me lembrando de minha semeadura.
No fim deste mês, buscarei minha mudança no apartamento do Rio, o espólio que me cabe dos doze anos de casamento encerrados no início deste ano. Não há um dia em que não me lembre do cheiro do pelo do Caetano, deitado ao meu lado na cama, esquentando meus flancos. Ou do chulezinho nas patas de Cora, com suas meias de pelo branco naquele corpo caramelo. De nós três sentados na sala, sentindo a maresia que fez parte dos nossos últimos anos juntos no Rio de Janeiro de muitos bem-te-vis. Do cheiro da cabeça do meu ex-marido quando eu lhe dava tchau toda manhã antes de ir trabalhar.
E tenho pensado nesses objetos acumulados, herdados, no desfazer e refazer de uma casa, nos vazios que ficam em ambos os lados, na vida inodora de um divórcio, porém repleta de cuidados que tentam dar conta do terreno acidentado e complexo pelo qual ambos estamos caminhamos desde que eu pedi para sair.
Quando, às 2h44 da madrugada passada, acordei com sede, na cozinha de minha casa, na penumbra de minha breve insônia, eu me lembrei de uma fala de José Tolentino Mendonça, autor a quem tenho lido nos últimos dias, numa entrevista que deu há algum tempo.
“A fé é claramente nocturna. A luz só se vê à noite, como as estrelas. As estrelas brilham no céu nocturno. A luz da fé brilha na noite. A fé é um lugar sem certezas. A fé é um lugar de abertura. A fé é uma forma de hospitalidade radical. Para mim, as grandes imagens bíblicas da fé são as da luta de Jacob com o anjo (quando ele, no amanhecer ainda escuro, ao atravessar um riacho, luta com o próprio Deus sem saber que está a lutar com Deus; mas essa imagem do combate nocturno, agónico, um bocado imperceptível mas que nos fere e deixa depois no nosso corpo a ferida, é a imagem mais prodigiosa do que é a fé no Antigo Testamento) e a do percurso que as mulheres fazem de manhãzinha, com o dia ainda muito escuro, a caminho de um sepulcro que encontram vazio. A fé tem necessariamente esse lado nocturno de indagação e de expectativa. A fé é uma expectativa. E é nesse sentido a imagem do salto no escuro. A minha poesia é o mapa da minha procura. É o testemunho de que eu busquei. Nem sempre diz o que busco mas diz sempre que eu busquei”.
Para além das questões religiosas, concordo com ele. Estar saciado da vida é não precisar dela. É preciso ter sede e é preciso ter saudade, uma chispa de fé. Todos esses vestígios de vida que me vieram nesta manhã dão conta de mim explorando o mundo. Não sei o que busco, mas sigo. Que bom que, na ausência de sol como na manhã de hoje, eu consiga ver a luz. Tudo o que sou perfuma o amanhã. Sem mim não há dia.

